Cunha: a capital da cerâmica entre serras, lavandas e estrelas
A cerca de mil metros de altitude, entre as serras da Mantiqueira, do Mar e da Bocaina, Cunha é conhecida no Brasil inteiro por um símbolo que raramente se associa a uma cidade pequena do interior paulista: a cerâmica de alta temperatura. O barro, porém, é presença antiga ali muito antes de virar atração turística. Antes da chegada dos portugueses, indígenas tamoios já trabalhavam a argila da região, tradição que seguiu viva por séculos através das olarias de tijolos e das paneleiras da roça, ceramistas caseiras que produziam peças utilitárias de influência indígena.
Do barro caipira ao forno japonês
A cerâmica que hoje atrai visitantes de várias partes do país tem origem bem datada: em 1975, um grupo de artistas se mudou para Cunha para estudar e desenvolver a técnica, e no ano seguinte fundou o primeiro ateliê da cidade, instalado no Antigo Matadouro. O grupo trouxe da tradição japonesa o forno noborigama, construído em rampa e alimentado a lenha, capaz de atingir temperaturas altas o suficiente para criar esmaltes e texturas que se tornaram a marca registrada da cerâmica local. Cunha é hoje considerada o maior polo de cerâmica artística de alta temperatura da América Latina e reúne a maior concentração de fornos noborigama do país, distribuídos por ateliês que podem ser visitados ao longo do ano.
Festival, roteiro dos ateliês e Casa do Artesão
Para conhecer esse universo de perto, o roteiro mais tradicional é percorrer os ateliês espalhados pela zona rural e pelo centro histórico, muitos deles abertos à visitação, além da Casa do Artesão, ponto de referência para quem quer comprar peças direto de quem produz. Uma vez por ano, geralmente em junho, a cidade recebe o Festival Internacional da Cerâmica de Cunha, evento gratuito que reúne ceramistas, oficinas, demonstrações de técnicas e um olhar voltado à ancestralidade indígena que deu origem a essa tradição. A programação de cada edição costuma ser divulgada com antecedência pelos canais oficiais do festival e da prefeitura, então vale confirmar as datas antes de planejar a viagem.
Lavanda, cachoeiras e céu estrelado
A vocação turística de Cunha não se resume à cerâmica. O Lavandário, considerado um dos maiores campos de lavanda do estado de São Paulo, tornou-se um dos points mais fotografados da região, especialmente na época de floração. A cerca de 12 quilômetros do centro, duas cachoeiras oferecem opções de banho e trilha para quem busca contato mais direto com a natureza da Mata Atlântica remanescente. Nos últimos anos, a cidade também vem se firmando como referência em astroturismo, com observação de estrelas em pousadas e em um observatório local, aproveitando a baixa poluição luminosa da altitude e do relativo isolamento da região.
Poucos lugares no Brasil conseguem unir, num mesmo fim de semana, uma tradição ceramista centenária, campos de lavanda e observação de estrelas.
Entre um ateliê e outro, vale reservar tempo também para o centro histórico, com seu casario simples e ares de cidade de montanha, e para os mirantes que emolduram Cunha com as três serras que a cercam. É um roteiro que funciona tanto para quem tem apenas um dia disponível quanto para quem prefere se hospedar alguns dias e explorar a região com calma.
Conteúdo produzido e revisado pela redação do RMVale.